Política

Jayme Miranda: a memória de um alagoano que a ditadura fez desaparecer, mas não conseguiu apagar

Centenário do jornalista, advogado e dirigente comunista reúne família, pesquisadores e defensores dos direitos humanos em homenagem marcada pela busca por memória, verdade e justiça

Por Thayanne Magalhães 16/07/2026 07h11 - Atualizado em 16/07/2026 07h40
Jayme Miranda: a memória de um alagoano que a ditadura fez desaparecer, mas não conseguiu apagar
Jayme Miranda - Foto: Acervo pessoal

Cem anos depois de seu nascimento, Jayme Amorim de Miranda continua sendo uma presença marcante na história política de Alagoas e do Brasil. Jornalista, advogado e um dos principais dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele desapareceu em fevereiro de 1975, após ser sequestrado por agentes da repressão durante a ditadura militar. Meio século depois, sua família ainda não sabe onde estão seus restos mortais. O centenário, celebrado nesta sexta-feira (17), transforma-se não apenas em uma homenagem à sua trajetória, mas em um novo capítulo da luta por memória, verdade e justiça.

Nascido em Maceió, em 17 de julho de 1926, Jayme cresceu em uma família tradicional alagoana e, ainda jovem, aproximou-se das ideias socialistas ao dedicar-se aos estudos de Filosofia, História e Sociologia. Acompanhando os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, aproximou-se do PCB e iniciou uma militância que marcaria toda a sua vida. Advogado e jornalista, dirigiu o jornal Voz do Povo, publicação que se tornou referência para o movimento sindical e para as pautas da classe trabalhadora em Alagoas. Com o passar dos anos, ascendeu à direção nacional do partido, sendo apontado por companheiros como um dos nomes capazes de suceder Luiz Carlos Prestes na liderança da legenda.

Jayme Miranda com Olga nos braços (Acervo pessoal)
Jayme Miranda com Olga nos braços (Acervo pessoal)


A militância custou caro. Jayme foi preso diversas vezes antes e depois do golpe militar de 1964. Seu jornal foi fechado e incendiado, e ele acabou deixando Alagoas para viver na clandestinidade no Rio de Janeiro ao lado da esposa, Elza, e dos quatro filhos pequenos. Em 4 de fevereiro de 1975, foi sequestrado durante a chamada Operação Radar, voltada à perseguição da direção do PCB. Investigações do Ministério Público Federal apontam que ele foi levado para um centro clandestino de tortura em Itapevi, na Grande São Paulo, onde teria sido submetido a sucessivas sessões de tortura antes de ser assassinado. Seus restos mortais jamais foram encontrados.

Para a filha de Jayme, Olga Miranda, os cem anos de nascimento do pai representam muito mais do que uma data simbólica. São um chamado permanente para que o país não esqueça os crimes cometidos durante a ditadura.

"O reconhecimento da responsabilidade do Estado pela morte de Jayme representa um importante passo institucional, mas não encerra nossa busca. Até hoje não sabemos exatamente como ele morreu, quem participou do crime e onde estão seus restos mortais", afirma.

Recentemente, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos expediu a certidão de óbito de Jayme Miranda, documento que reconhece oficialmente a responsabilidade do Estado brasileiro por sua morte. Para a família, entretanto, a medida tem valor histórico e jurídico, mas não substitui o direito à verdade.

"O direito à memória, à verdade e à justiça continua sendo uma reivindicação atual. Nossa luta é a mesma de tantas outras famílias que ainda esperam respostas sobre seus parentes desaparecidos durante a ditadura", ressalta Olga.

O neto, Thyago Francisco Agra de Miranda, lembra que a busca por responsabilização avançou em 2019, quando o Ministério Público Federal denunciou os ex-agentes da repressão Audir Santos Maciel e Carlos Setembrino da Silveira pela morte de Jayme Miranda. A ação, contudo, acabou sendo barrada pela interpretação da Lei da Anistia vigente à época.

Segundo ele, uma nova expectativa surgiu a partir da discussão aberta no Supremo Tribunal Federal sobre a possibilidade de considerar a ocultação de cadáver um crime permanente, não alcançado pela anistia.

"Uma das lutas da família é justamente pela revisão da aplicação da Lei da Anistia nesses casos. O ministro Flávio Dino defendeu que a ocultação de cadáver é um crime continuado, justamente porque as famílias seguem sem saber onde estão seus entes queridos. O julgamento foi interrompido por pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes, e nós aguardamos essa definição com expectativa", afirma. O STF reconheceu repercussão geral sobre o tema, o que permitirá que a futura decisão tenha efeito sobre processos semelhantes.

Os quatro filhos de Jayme e Elza: Olga, Jayme, Yuri e André (Acervo pessoal)
Os quatro filhos de Jayme e Elza: Olga, Jayme, Yuri e André (Acervo pessoal)


A família também acompanha as descobertas produzidas por pesquisadores dedicados ao caso. Entre elas estão informações reunidas no livro Cachorros, do jornalista Marcelo Godoy, publicado em 2024, que reforça relatos do ex-agente Marival Chaves sobre o sequestro e a tortura de Jayme Miranda e acrescenta detalhes sobre o período em que ele permaneceu preso em um centro clandestino antes de ser morto. As novas informações passaram a integrar o conjunto de elementos analisados pelo Ministério Público Federal e pelos familiares na busca pela reconstrução dos fatos.

As homenagens do centenário também carregam um sentido de alerta para o presente. Depois de promover, em 2025, um ato pelos 50 anos do desaparecimento de Jayme, em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil e o Comitê Memória, Verdade, Justiça e Reparação de Alagoas, a família volta a reunir amigos, pesquisadores e artistas em um encontro cultural, nesta sexta-feira, no Bar Zeppelin, em Maceió. A programação reúne música e poesia em homenagem não apenas a Jayme Miranda, mas a todas as vítimas da ditadura.

"Mais do que nunca, essa memória é necessária. Trabalhamos para que isso jamais volte a acontecer. A democracia exige vigilância permanente, e lembrar a história de Jayme é lembrar também de todos aqueles que foram perseguidos por defenderem suas ideias", afirma Thyago.

Thyago Miranda (Acervo pessoal)
Thyago Miranda (Acervo pessoal)


Cinquenta e um anos após o desaparecimento de Jayme Miranda, a história permanece incompleta. O Estado brasileiro reconheceu sua responsabilidade pela morte do jornalista, mas a pergunta que acompanha sua família desde fevereiro de 1975 continua sem resposta: onde está Jayme Miranda? Enquanto ela permanecer sem solução, o centenário deixa de ser apenas uma celebração da vida de um alagoano que marcou seu tempo e se transforma em um símbolo da persistência de uma luta que atravessa gerações.